terça-feira, 9 de abril de 2013





HOLLEN

Ps.: Para quem acompanha o meu blog, notou que além das minhas ilustrações, estou postando textos. Este faz parte de um momento em que estou me aventurando pela literatura. Em breve terei novidades (assim espero!). Segue o conto:



Não lembro mais como tudo começou. O tempo não conta muito neste lugar. Nem a dor, antes latente, parece não incomodar. Minha pele curtida já não reclama. O clarão das labaredas não queima como antes. Meus olhos perderam a vida e apenas vejo dor e pânico.

Tudo que eu era se foi. Tudo em que cria se esvaiu em uma mentira que consumiu nossas almas e nos condenou ao precipício eterno. Testemunho o lamento e as lágrimas, mas daqui a um tempo, nem lágrimas encontraremos, pois o fogo consome tudo. O enxofre apaga nossos sonhos e lembranças, e em breve, tudo que um dia foi não será mais.

Olho para cima e não vejo o início, fito abaixo e não vejo o fim. Bem perto está o grande lago, crepitando, explodindo em lava e fumaça. Os gritos e gemidos estão em todo lugar, mas os meus ouvidos não mais sangram com tamanha agonia. A todo o momento, criaturas são levadas para o lago e mais sofrimento alimenta este tanque de morte. O mundo de hoje não acredita como antes. As pessoas perderam a fé e por isso, ao romperem a membrana da realidade se encontram perdidas, e atordoadas se tornam presas fáceis para os embustes das almas condenadas.

Aprisionadas, são conduzidas para o lamento e a tortura, muito mais por nunca terem acreditado que este lugar exista do que pelas chagas de seus pecados. Muitas vezes este lugar se torna uma extensão de seu sofrimento em vida bem antes da primeira morte.

Ainda há tempo para todos escaparem deste abismo, mas como fazê-lo se o mundo caiu em desgraça?

Por um breve instante fechei os meus olhos imortais e pude retornar aquele dia. Um passado tão antigo que para muitos se perdeu nas nevoas do tempo. Vivíamos para amar a Deus e a servi-Lo. A nós, anjos, só importava receber aquele amor, incondicional, pleno. Seu olhar era profundo e Sua voz era doce.

Tudo estava em perfeita harmonia e o plano celeste não sofria abalos, até o momento em que o Criador decidiu expandir Sua obra. Criou mundos além do celestial, criaturas com alma e dentre elas, uma que ele amou mais do que a nós. Esta criatura esculpida no pó da terra se tornou a maior de todas as criações de Deus. Não entendíamos esse amor e um de nós tomou as dores de muitos e não aceitando ficar abaixo da nova criatura, mudou a história celeste para sempre.

Lúcifer fora gerado pela mão de Deus no primeiro dia da criação. Era um lindo Querubim, formoso e com um olhar penetrante. Deus o amava e sua aura era cheia de luz. O Querubim se recusou a prostrar-se diante da criatura, se colocando em uma posição contraria a grande maioria dos celestiais. Sua retórica era muito convincente e sua língua mais afiada que a espada. Achávamos que poderíamos mudar o rumo das coisas e passamos a seguir Lúcifer. Não contávamos com sua vaidade e a iniquidade de suas ações nos colocou frente a frente com os exércitos de Miguel. Este choque ficou conhecido como a “Guerra do Paraíso”.

Duas forças colidiram, em uma batalha sangrenta. Estávamos em minoria, apenas 1/3 dos celestiais aderiu a campanha do Anjo de Luz. Nossa derrota foi iminente e depois disso, tudo mudou. Fomos jogados no reino dos mortos no mais profundo dos abismos. Exilados do plano celeste e sem o amor de Deus. Fomos banidos de Sua presença, o pior dos castigos.

Os primeiros dias foram terríveis. A dor e o ranger de dentes eram insuportáveis. Vivíamos atordoados pela nossa derrota e humilhados. Miguel se sagrou vitorioso ganhando posições hierárquicas importantes no plano celeste. Eventualmente Miguel desce ao abismo para ter conosco. Na verdade, ele vinha nos vigiar, porque ele foi contra o exílio. Ele ansiava pelo extermínio.

Eras se passaram e o mundo antes virgem e puro, foi corrompido e violentado por nós. Não podíamos retornar a Casa do Pai, mas ferimos a criação. A alma dos homens foi corrompida maculando parte da grande obra. Passamos a viver entre os homens, alimentando suas almas com mentiras e vaidades. Como são frágeis os seres humanos.

Não posso mensurar o meu arrependimento de ter acreditado em tantas mentiras. Estou condenado ao fogo eterno. Não percebi a astúcia daquele que prometia redenção, mas na verdade, estava nos usando para alimentar o seu ego e sua sede de poder. De joelhos me prostro diante do vazio. Ao levantar meus olhos contemplo a grande casa. A mansão dos mortos. Um lugar terrível.

Ele já esteve aqui. Adentrou aquela porta e permaneceu lá por três dias. Ninguém que lá entrou conseguiu sair, mas com Ele foi diferente. Saiu e tirou muitos de lá. Da mesma forma que conseguiu subir o abismo e deixar este plano. Eu o vi, e naquele instante, pude ver o Seu rosto. Ele me encarou. Nunca esquecerei aquele olhar, penetrante, sereno e ao mesmo tempo austero e impávido. Não senti condenação naquele olhar.

Depois daquele dia as coisas mudaram por aqui. Ficamos sabendo que os seres humanos foram perdoados de seus pecados e que os celestiais teriam um plano que envolvia o retorno do Filho de Deus ao plano físico e o aprisionamento daquele que nos enganou.
Mereço toda a condenação. Não irei lutar. Arrependo-me da guerra e lastimo pela minha morte. Lembrei-me das antigas orações e entoei cânticos ancestrais clamando por misericórdia. A todo instante elevei meus pensamentos na tentativa de romper o tecido que separa este plano, do celeste.

Foram inúmeras tentativas, mas o meu clamor parece não ter rompido o tecido, mas ecoou por todo o sheol. Fui perseguido e capturado, agora me encontro perto do fim. De joelhos, a beira do abismo cercado por aqueles que outrora lutaram ao meu lado. As correntes apertavam o meu pescoço e punhos. O andar era lento graças as correntes pesadas. Minhas asas, antes alvas, agora negras, estavam quebradas. Não me restava alternativa a não ser dar o passo definitivo. Antes disso, por um breve instante, pude ver Lúcifer, no alto, olhando fixamente para mim. Notei em seu olhar uma mansidão nunca vista. Como se em seu íntimo, tudo o que foi feito seria em vão, pois nosso destino já estava escrito e nossa condenação profetizada.

Após alguns instantes de silêncio e apreensão me joguei no abismo. Estava condenado a cair pela eternidade, a nunca tocar o chão. Uma queda livre. Era assim que me sentia, livre. O tempo não conta muito por aqui e acabei perdendo a noção de quanto tempo fiquei caindo.

Não havia mais tanto calor e pude jurar que cheguei a sentir um certo frio. As profundezas do abismo de sheol. Nunca imaginei que chegaria aqui, mas no final das contas, estou purgando os meus pecados de alguma forma. Não mereço ser salvo. Mereço a condenação que foi imposta. Eu traí o Criador e a criação. Quando tudo estava perdido notei um pequeno facho de luz. A claridade foi tomando lugar e aumentando. Não me importava mais com o que poderia acontecer, sendo consumido por aquela claridade intensa. A luz não era desconhecida. Achei que nunca mais fosse vislumbrar aquela luz...

Meus olhos se abriram e naquele momento fui tomado pela dor. A luz do grande astro queimava meus olhos. Por um tempo não vi absolutamente nada diante de mim. Estava no chão. Como pude chegar até o solo se fui condenado a cair pela eternidade? Minutos se passaram até que pude me adaptar a claridade. Uma certeza eu tive, o lugar em que me encontrava não era o Sheol.

Ao levantar, senti muita dor no corpo. De pé, notei que estava nu e sem minhas asas. Meu corpo estava frio apesar do calor intenso. Olhei adiante e vi uma estrada, que em linha reta parecia não ter fim. Ocorreu-me que deveria segui-la. Acreditei que o meu destino estava definido. Agora, não sei o que esta nova realidade me reserva, mas certamente tive uma nova chance. Há nuvens negras no horizonte, relâmpagos cortam o céu. Algo está prestes a acontecer. Devo ir naquela direção, sinto isso. Ajudei a distorcer a criação, agora faço parte deste mundo. Algo me diz que devo ajudar a equilibrar as forças. Algo me diz que este lugar será o meu purgatório. Se um dia eu puder retornar ao Shamayim devo passar por esta provação.

A estrada me conduzia para o desconhecido. Apesar de certo silêncio, ainda ecoava em meus ouvidos o clamor dos pecadores e os gritos de dor daqueles que foram jogados no grande lago de fogo. Não sou diferente daquelas criaturas. Eu aceito meu novo destino e as consequências que dele hão de vir...

                                                                            

                                                                        

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