sábado, 20 de abril de 2013




HOLLEN PARTE DOIS

Ps.: Não consegui me conter! Acabei dando sequência a esta história. Como se desenrolará o novo destino do anjo caído? Acompanhe! Não sei como tudo isso vai terminar, mas uma coisa é certa, a jornada está apenas começando! Leiam! =)


As vozes não param. A agonia daqueles que foram condenados ecoa em minha mente. Achei que neste plano estaria livre do que vivi no submundo, mas estou percebendo que ainda estou ligado ao Sheol.

Estou andando a bastante tempo, seguindo meus instintos. A estrada de terra começa a ferir os meus pés e sinto alguns calafrios que outrora não sentia. Acho que meu corpo está se adaptando a minha nova realidade. A tempestade não parou e os raios cortam o céu, com suas nuvens negras e ameaçadoras. O que me espera do outro lado da tormenta? O meu destino está incerto e a todo o momento me pergunto por que fui agraciado pela misericórdia do Criador?

Ainda estou sem roupas. De certa forma isso não me incomoda como aos humanos. Desde que o pecado original foi consumado, eles têm vergonha de exibir seus corpos. Naquele instante a serpente os enfeitiçou com seu veneno mortal. A primeira cicatriz na obra foi feita e tudo o mais mudou. O casal primordial foi expulso do Éden e jogado a própria sorte neste mundo que ainda era jovem.

Eu estava lá no momento em que o plano foi arquitetado. A Guerra do Paraíso havia nos ferido profundamente e estávamos preparando uma retaliação à nossa derrota. Satanás foi escolhido para profanar a obra e mostrar que a criação não era perfeita.

Tudo aconteceu como o esperado. Os celestiais não puderam intervir. O Criador, mesmo sabendo que algo aconteceria, esperou. Ele deu aos homens a livre escolha. Para o Criador, infelizmente, a criatura escolheu a morte.

Raios cruzaram o céu. A noite por alguns instantes virou dia. O clarão, mesmo que repentino revelou algo a distancia. Prontamente fui até lá para ver do que se tratava. Era um veículo, tombado e abandonado. Pelo seu estado, estava por lá há bastante tempo. Não saberia precisar, mas algo me dizia que uma tragédia aconteceu. Toquei o veículo e pude sentir sua energia.

A porta estava entre aberta e ao abri-la, com certa dificuldade, pude ver uma ossada no banco de trás. Não toquei nela. Continuei explorando o carro e ao passar pelo espelho vislumbrei rapidamente o meu reflexo. Voltei para ver com mais detalhes e notei que aquele não era o meu rosto. Desta forma percebi que estava usando um avatar. Os anjos fazem uso dos avatares quando descem ao plano físico. Uma forma de esconder nossa verdadeira natureza, incluindo as asas.

Passei alguns momentos encarando o meu novo rosto. O toquei. Um rosto ainda jovem com traços fortes. Gostei do que vi. Faz esquecer um pouco o passado, me dando esperança de um futuro melhor. O otimismo me tomou por alguns segundos, mas a realidade voltou a pesar com o som de mais um trovão dançado entre as nuvens. Esse foi bem forte. Olhei novamente para o céu e pude ver a lua em um breve momento de deslocamento entre as pesadas nuvens negras. Apesar de pesadas e com bastantes raios não havia precipitação de chuva, como se aquelas nuvens tentassem me dizer algo, prenunciar o que estava por vir. Algo grandioso e igualmente perigoso.

O porta-malas estava aberto e dentro dele havia roupas. Para a minha sorte, algumas peças cabiam em meu corpo e as vesti. Senti o calor percorrer a minha pele e abrandar o frio noturno. Isso me gerou certa satisfação que logo foi esquecida quando mais ao longe percebi um segundo corpo. Tratava-se de uma ossada feminina, pois as roupas, sujas e rasgadas, me indicavam isso.

Alguns ossos estavam quebrados e pela posição do corpo, indicava que a criatura estava se rastejando no momento de sua morte. Uma fuga desesperada e inútil naquele momento de dor e tristeza.

Passei parte de minha eternidade convivendo com a dor e a tortura de milhares. O pecado de centenas de criaturas deixou o meu coração frio, sendo assim, aquele cenário não me abalou. Desta vez toquei na ossada e pude ver o que acontecera aquela mulher. Espancamento, violação e morte. Este mundo deixou de ser um lugar seguro há muitas eras. Levantei-me olhando para o horizonte, continuei minha jornada.

Olhei para trás e não mais avistei o carro nem os corpos, se perdendo em meio às trevas. Por alguns momentos voltei a pensar na história daquele casal, que encontrou o seu destino na desolação do deserto. Como foram parar ali? Algo me diz que um dia saberei.

O calçado apertava os meus pés e o caminhar começava a me deixar cansado. Não tinha ideia das horas de caminhada solitária, mas neste corpo, a fome começou a limitar meus movimentos, juntamente com a sede.

Tropecei. Caído no chão, estava quase sem forças para levantar. Fiquei ali, prostrado por alguns momentos. Neste cenário, senti uma presença. Mesmo não podendo ver, a presença me parecia bem próxima e o forte odor de enxofre não deixou dúvidas, o Sheol mais uma vez se fazia presente.

Levantei-me prontamente, dando um giro de 360º tentando ver quem estava por perto. Inútil. A lua voltou a aparecer no céu e sua luz revelou a face do meu visitante.

Era um Incarnal. Apesar da aparência um tanto quanto sinistra, dentro da hierarquia infernal não passava de um reles capacho. Os Incarnais não são demônios, mas almas condenadas que optam por se tornar um. Muitos que antes estavam condenados ao lago de fogo imploram pela conversão. Acham que com isso sua dor será extinta. Inocentes, pois é aí que as dores começam. A iniciação de um Incarnal é a pior das torturas. Sua alma é revirada e destruída, renascendo em seguida. Já presenciei diversos rituais. Os Incarnais até podem subir hierarquicamente no plano infernal, mas sua evolução passa por muito sofrimento e humilhação.

Sua presença é uma prova de que o Sheol sabe que não fui destruído. Seu olhar era penetrante e me senti invadido por aquele ser. Ele não falava, mas podia sentir suas intenções. Ele veio para me matar. O plano infernal não teria tanta misericórdia assim. Para os infernais, eu não passava de um traidor e sendo assim, deveria ser destruído.

De repente o chão se abriu e dentro dele saíram diversas criaturas, cães infernais. Seres hediondos que foram criados para matar e destruir.

Prontamente, tentei invocar minha verdadeira forma e nada aconteceu. Inutilmente tentei mais uma vez, constatando que estava preso a este avatar. Como poderia lutar sem minhas habilidades sobrenaturais? Os cães começaram a se mover, correndo em minha direção. Não tive escolha a não ser correr também.

Uma fuga desesperada pelo deserto em meio às trevas. Cada passo era um mistério, tendo deixado a minha rota rumando por um caminho desconhecido. As criaturas estavam em meu encalço. Podia sentir sua proximidade, até que dei um passo em falso e tombei. Não havia chão sob os meus pés e comecei a cair, rolando sobre as pedras até que parei, quase desfalecendo.

Em meio à tosse olhei para trás e os vi praticamente sobre mim. Virei-me e usando o reflexo natural de defesa coloquei o braço à frente para me proteger. Um deles mordeu o braço e outro pegou minha perna. O meu grito de dor cortou a imensidão do deserto. Logo em seguida pude avistar o Incarnal acima, regozijado pela iminência de minha morte.

Desta forma que minha existência termina? Os céus não me dariam uma nova chance para eu ter um fim como este, ainda mais, sucumbir diante de um Incarnal. Senti que estava perdendo sangue. A luta pela sobrevivência levantou poeira e muita dor. Os demais cães estavam ao redor rosnando e esperando sua vez de atacar. Este corpo não aguentaria muito tempo e logo estaria morto, e minha alma seria aprisionada no inferno para sempre. Certamente seria jogado no lago de fogo para sofrer como qualquer outro. Estava perdendo as forças quando um clarão tomou o deserto seguido de um estrondo.

Em meio à luta pude perceber o céu se abrindo e diversos celestiais descendo como flechas em meu socorro. Voaram para o ataque com suas espadas flamejantes e os golpes foram certeiros. Os cães não tiveram a oportunidade de se defender e nem tampouco de revidar. Cabeças rolaram e corpos foram mutilados. Ao serem destruídos seus corpos viraram pó.

Não se mata um demônio, apenas o seu avatar. Sua alma, ou seja, sua verdadeira forma retorna ao Sheol para renascer. Foi o que aconteceu com os cães. Logo em seguida senti a presença de uma grande energia chegando.

Meu corpo não tinha forças para qualquer movimento, mas pude ver que se tratava de Miguel, o próprio. Sua presença fazia o chão tremer e sua energia era tão intensa que a cada passo, o seu calor em contato com a areia, a transformava em vidro. Em sua aproximação, ouvia-se o quebrar dos cacos sob suas sandálias. Já perto de mim, pude notar seu olhar e com ele, o desprezo.

Após me olhar fixamente o Arcanjo levantou a cabeça e encarou o Incarnal. Prontamente avançou contra ele. Sua velocidade era sobrenatural, e os meus olhos, agora humanos, não foram capazes de acompanhar tal movimento. O Incarnal não teve chances, sendo partido ao meio pela espada do Arcanjo Miguel. Assim como os cães, o corpo mutilado do Incarnal virou pó e sua alma, condenada, retornou ao submundo, para renascer e servir novamente às ordens infernais.

O general da milícia celeste voltou a se aproximar de mim. Meus ferimentos eram profundos e o meu sangue em contato com a saliva dos cães infernais causava dor e minha pele já iniciava sua putrefação. Não demoraria muito para eu morrer. Miguel embainhou a espada e se agachou. Colocou sua mão sobre os meus ferimentos e os mesmos desapareceram. Prontamente sentei a sua frente e pude olhar para o seu rosto. Aquele olhar era poderoso, fazendo com que em certo momento desviasse o meu. Não consegui encará-lo por muito tempo.

Depois que meus ferimentos foram curados, o Arcanjo levantou, me dando as costas disse:

 _ Estou cumprindo ordens superiores. Não sei o que Ele viu em você, mas Deus tem um plano para ti. Disse me olhando sobre o ombro.

Neste mesmo instante suas asas se abriram, revelando toda a sua majestade. Alçou voo e sendo acompanhado pelos anjos romperam o céu e desapareceram entre as nuvens.

Fiquei de pé, e por alguns minutos olhei o céu. Pensando se um dia voltaria a ver o Pai. Será que um dia retornarei ao Shamayim?

Neste momento o deserto começou a ganhar cores. O grande luzeiro iniciava o seu ciclo com mais uma alvorada. A luz do dia que está nascendo revelou uma cidade ao longe. Não tinha outra escolha a não ser chegar até lá. Meu corpo não doía mais como antes e cheguei a sentir uma boa energia. Se a minha alma está regozijada o meu corpo padecia de alimento.

Indo a cidade, me ocorreu algo. Um Incarnal nunca poderia ter cruzado o tecido que separa os Planos. Eles não tem esse poder, a não ser que estivessem acompanhados de um demônio. Quem poderia ser? Não senti a sua presença. Sua missão não foi realizada, e certamente ele retornará, para acertar contas.

Meus passos estavam mais firmes e pude sentir o calor do sol em meu rosto. Sua energia alimentava meu corpo de certa forma. O suor escorria pela minha testa.

As nuvens negras deram lugar às brancas, mostrando que momentaneamente o perigo se afastou. Por outro lado, minha jornada estava apenas começando e os mistérios e desafios que virão, terei que descobrir sozinho...


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